De acordo com os dados do Sistema de Informações de Nascidos Vivos (Sinasc), 39% dos partos no Brasil são realizados por meio de cesárea. O índice é muito superior aos 15% recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Essa realidade é considerada preocupante pelo Ministério da Saúde, visto que a cirurgia envolve riscos tanto para a mãe quanto para o bebê.
O projeto “Inquérito epidemiológico sobre as consequências da cesariana desnecessária no Brasil”, apoiado pela Fiotec, pretende conhecer os determinantes, a magnitude e os efeitos adversos decorrentes deste tipo de cirurgia realizada de forma desnecessária no Brasil. O intuito é chamar atenção dos profissionais de saúde para o modelo de parto vigente e propor, assim, mudanças na prática obstétrica do país.
A professora de epidemiologia nos cursos de pós-graduação da Ensp e pesquisadora dos serviços de saúde Maria do Carmo Leal – coordenadora do projeto – explica que o inquérito está em fase de conclusão da coleta de dados, que o correu em todos os estados da federação, em instituições hospitalares públicas, privadas e mistas.
Foram realizadas entrevistas e consultas de prontuários de 24 mil puérperas. “Ao todo, visitamos 180 diferentes municípios e 266 diferentes hospitais. Além disso, fizemos uma entrevista complementar por telefone, 60 dias após o parto dessas mulheres”, afirmou Maria do Carmo.
Na entrevista abaixo, a coordenadora fala sobre a importância da diminuição do número de cesáreas no Brasil, a fim de “reduzir os riscos, bem como para recuperar a naturalidade do nascimento e otimizar o encontro da mãe com o seu bebê, nesse momento de tamanha importância na vida de ambos e das famílias”.
Quando e como surgiu o projeto?
A ideia do projeto nasceu da inquietação de alguns pesquisadores quanto aos índices crescentes de cesáreas no país e pelos relatos na literatura científica dos malefícios dessa intervenção quando desnecessária. Esses pesquisadores procuraram o Ministério da Saúde (DECIT), que abriu em seguida o edital de convocação de uma pesquisa em nível nacional.
Quais os riscos no procedimento da cesariana no Brasil? O que poderia ser feito para melhorar o procedimento?
O projeto tem exatamente a tarefa de responder a isso, para o Brasil. Mas, o que se conhece da literatura internacional é que os prejuízos para as mulheres são: maior risco de óbito, infecção, desconforto pós-parto, prejuízos para o aleitamento materno; e em gravidezes subsequentes: implantação baixa da placenta, placenta acreta, ruptura uterina. Para os recém-nascidos: maior risco de prematuridade, necessidade de suporte ventilatório para respirar ao nascer, uso de UTI neonatal, diminuição do contato com a mãe imediatamente após o nascimento.
Qual a importância desse projeto para a sociedade?
O primeiro é colocar o nascimento como um processo social, cultural e familiar da reprodução humana, em que a mulher é a protagonista e não o profissional de saúde. O parto pertence às mulheres, não deve ser um ato médico, como não é nos países europeus, muito embora a maioria deles ocorra dentro dos serviços de saúde. O papel do profissional de saúde é de amparo e suporte, mas a condução do parto é das mulheres, que decidem como querem fazê-lo: se de cócoras, dentro d’água, sentadas etc. Porém, é preciso não confundir a liberdade de escolha da posição do parto com a liberdade de escolha de fazer uma cirurgia. Nos países europeus, a decisão por uma cesárea é decorrente de uma complicação médica da gravidez, não é uma escolha desinformada das mulheres. Ao contrário daqui, as mães têm medo quando são recomendadas a fazerem essa cirurgia, porque sabem que estão em risco de complicações.
O projeto foi selecionado como um dos 15 dos projetos mais inovadores de Saúde Pública, em 2010, na categoria Formulação, implementação e avaliação de políticas. Em sua opinião, ao que se deve esse reconhecimento?
Há três aspectos que dizem respeito ao projeto: a pertinência dele, que ocorre no momento em que é lançada a Rede Cegonha, uma política para modificar os resultados perinatais do país; a qualidade da metodologia do estudo, que vai conseguir responder às perguntas mais importantes para a saúde das parturientes e dos recém-nascidos; e a coincidência com o movimento social das mulheres, que recentemente vêm saindo às ruas pedindo para terem o direito de decidirem sobre os seus partos.
Enquanto profissional e cidadã, como você enxerga a sua participação no projeto?
Eu sou a coordenadora desse projeto, que conta com a colaboração de uma equipe central, da Fiocruz e de outras instituições públicas brasileiras. Sinto-me fazendo um estudo importante para a tomada de decisão do Ministério da Saúde sobre a política de atenção ao parto no momento atual, bem como promovendo um estudo de linha de base para a avaliação das políticas que serão implementadas alguns anos adiante.
