Estudo aponta que Wolbachia levou a redução de casos de dengue em Campo Grande - Fiotec

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Estudo aponta que Wolbachia levou a redução de casos de dengue em Campo Grande/MT
(Foto: Flávio Carvalho - WMP Brasil/Fiocruz)

Um estudo conduzido pela Fiocruz, pelas universidades de Yale, Stanford, Johns Hopkins, de São Paulo (USP) e Monash University (Austrália), pelo World Mosquito Program (WMP) e pelas secretarias Municipal de Saúde de Campo Grande e Estadual de Saúde de Mato Grosso do Sul apresenta uma análise detalhada da soltura em massa de mosquitos Aedes aegypti com bactéria Wolbachia como estratégia de controle da dengue em Campo Grande (MS). Os resultados indicam uma redução, em 2024, de 63,2% na incidência da doença nas áreas em que a Wolbachia atingiu níveis estáveis na população de mosquitos, após a intervenção realizada entre 2020 e 2023.

Com participação da Fiocruz Mato Grosso do Sul e da Fiocruz Minas, a pesquisa, que será publicada na edição de fevereiro de 2026 da The Lancet Regional Health – Americas, avaliou a intervenção como uma política pública financiada e coordenada pelo Ministério da Saúde, marcando a primeira análise científica programática desse tipo no país.

A liberação de mosquitos com Wolbachia foi realizada de forma contínua por três anos, abrangendo seis grandes zonas urbanas e totalizando mais de 100 milhões de insetos liberados. A técnica envolve introduzir a bactéria Wolbachia (comum em cerca de 60% dos insetos) no mosquito Aedes aegypti. A presença dessa bactéria dificulta a multiplicação dos vírus dentro do mosquito, diminuindo sua capacidade de transmitir doenças. Em 2024, Campo Grande apresentou 86,4% de prevalência média da bactéria nos mosquitos e 89% das áreas monitoradas alcançaram prevalência igual ou superior ao limiar de 60%, considerado indicador de estabilidade. O monitoramento entomológico utilizou 1.677 ovitrampas distribuídas pela cidade, permitindo acompanhar o avanço da Wolbachia mês a mês.

A análise da série histórica de casos de dengue (2008–2024) evidencia que, após a intervenção, a cidade deixou de registrar surtos com a magnitude observada no período pré-Wolbachia. Antes da implementação, os casos anuais frequentemente ultrapassavam 4.700 registros. Após a liberação dos mosquitos infectados, a cidade registrou 410 casos em 2021, 8.045 em 2022, 11.406 em 2023 e 605 até setembro de 2024. O estudo também demonstra uma relação proporcional entre a prevalência da Wolbachia e a queda na incidência da doença: quanto maior o percentual de mosquitos infectados com a bactéria, menor o número de casos de dengue.

O artigo destaca que a estratégia se integra às ações regulares de vigilância em saúde, não utiliza produtos químicos e apresenta características de manutenção autônoma na população de mosquitos ao longo do tempo. Reforça ainda que a Wolbachia se soma às demais iniciativas de prevenção, como eliminação de criadouros e vacinação, compondo um conjunto de medidas para redução da transmissão das arboviroses.

> A execução do Método Wolbachia no Brasil é tema de episódio da série Fiotec Apoia, disponível no canal da instituição no YouTube

A Fiocruz Mato Grosso do Sul desempenhou papel central na execução local do estudo, coordenando a produção científica e o monitoramento epidemiológico. A Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande atuou diretamente na logística territorial e operacionalização da estratégia, garantindo continuidade das atividades de campo. A Secretaria de Estado de Saúde apoiou a iniciativa cedendo o prédio para instalação e manutenção da fábrica de produção de mosquitos, disponibilizando dois veículos com combustível para as solturas e designando três técnicos para o projeto.

O estudo aponta que a intervenção apresenta viabilidade técnica, adesão comunitária e impacto epidemiológico consistente, características que podem subsidiar sua expansão para outros municípios. Em um cenário nacional de transmissão elevada de arboviroses, esses achados contribuem para o fortalecimento de políticas baseadas em evidências e para o desenvolvimento de abordagens integradas de vigilância e controle da dengue. 

A análise também reforça a importância de ações coordenadas entre instituições de pesquisa, sistemas de saúde e comunidade, contribuindo para o avanço de estratégias sustentáveis de controle de arboviroses no Brasil.


Fonte: Agência Fiocruz de Notícias (AFN).