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Julio Croda Foto Wilson Dias Agência BrasilJulio Croda - Foto: Wilson Dias - Agência Brasil (EBC)

Vivemos um colapso do sistema de saúde brasileiro, é o que afirma o médico infectologista, pesquisador da Fiocruz e professor da UFMS, Julio Croda, em entrevista à Fiotec. A realidade que vivemos hoje tem quatro atores: o Governo Federal, os estados, os municípios e a sociedade, “cada um com sua responsabilidade tem sua parcela de culpa na resposta brasileira à pandemia”, diz. O professor afirma que falhamos nas medidas preventivas individuais e coletivas e agora não restam alternativas, a não ser “medidas mais restritivas, associadas a ampliação da vacinação em toda a população”.

Leia na íntegra:

Estamos vivendo um colapso no Brasil? A que você atribui isso?

Atualmente estamos vivendo um colapso do sistema de saúde, principalmente em decorrência da Covid-19. Podemos atribuir a alguns fatores, falhamos nas medidas preventivas, tanto nas medidas individuais como coletivas, ou seja, a população passou a usar menos máscara, manter menos distanciamento e houve mais aglomeração. Dados da plataforma de monitoramento de locomoção de pessoas/aglomeração, um indicador do Google, mostrou que na terça-feira de Carnaval foi o dia com mais aglomeração no Brasil, desde o início da pandemia, evidenciando que o que estamos vendo hoje, após aproximamente 15 dias, é justamente o aumento de internações e óbitos. Nossa média móvel é a maior já apresentada no Brasil ao longo de toda pandemia e somos o País que apresenta maior média móvel no mundo, nos dias de hoje.

Temos também uma nova variante que é mais transmissível que a variante que já circulava e, portanto, as medidas de prevenção que anteriormente desaceleravam, de certa forma, a nossa curva de números de casos e internações, já não são suficientes, ou seja, se a gente continuar fazendo a mesma coisa que a gente fazia no passado, apenas essas medidas não serão suficientes para desacelerar a taxa de contágio.

O outro fator que nos trouxe ao pior momento é a velocidade de vacinação que ainda é muito lenta. Contratamos um número bastante restrito de doses, não fizemos acordo com outras empresas a ponto de garantir um número de doses expressivo nesse primeiro trimestre no Brasil.

Estamos vivendo uma segunda onda? Ou ainda nem nos recuperamos da primeira? O Brasil chegou a ter um momento de estabilidade?

O Brasil teve uma primeira onda, com uma discreta redução, 50%/60% em termos da média móvel de óbitos diários, houve uma elevação importante, a chamada segunda onda, principalmente após as campanhas eleitorais que ocorreram em 2020. Permanecemos em um platô elevado, de mil óbitos por dia durante todo o período de Natal, Réveillon, dezembro e janeiro, e agora, que seria o momento de queda desse platô, estamos vivendo uma continuação da segunda onda, com uma nova aceleração bastante forte, o que configura uma terceira onda, sem a gente ter reduzido importantemente a primeira onda.

Você acredita que o início da vacinação faz as pessoas acharem que já poderiam diminuir as restrições?

Acredito que sim. A vacinação nos traz esperança, a esperança do fim e isso é muito arriscado, porque as pessoas acreditam que a vacina já está muito perto e, portanto, deixam de adotar as medidas preventivas, deixam de manter o distanciamento, deixam de evitar aglomerações.

É bom sempre reforçar que nosso ritmo de vacinação está muito lento, nós não temos nem 5% da população vacinada até o momento. Para que a gente atinja algum tipo de controle através da imunidade coletiva nós teremos que vacinar 70%/ 80% da população, muito provavelmente isso só deve acontecer a partir do segundo semestre.

Para você, qual é o ponto crítico do enfrentamento desta pandemia no Brasil?

No que diz respeito a emergência de saúde pública é a comunicação, que é fundamental no sentido da prevenção e de orientações adequadas. Faltou comunicação por parte do Governo Federal no momento que não estimulou medidas preventivas, como uso de máscaras, como não estimulou medidas mais restritivas pontuais em diferentes regiões onde se tinha perdido a capacidade de ofertar mais leitos de terapia intensiva. A gente sabe que o sistema de saúde colapsou em diversas cidades e agora está em vias de colapsar em outras tantas. Nesses momentos do colapso não existe outra alternativa senão medidas mais restritivas, do ponto de vista comunitário, que trazem impactos sociais importantes, então elas devem ser adotadas e principalmente orientadas pelo Governo Federal, com indicadores técnicos claros de quais regiões deveriam adotar essas medidas.

É importante entender também as responsabilidades a nível de governos estaduais e municipais, como, por exemplo, a oferta de exames RT/PCR, que está muito relacionada aos laboratórios centrais e isso é função de cada estado. Assim como a busca de casos de contato e é função dos municípios identificar todos os casos e contatos e certificar que essas pessoas permaneçam em isolamento domiciliar. Cada um com sua responsabilidade tem sua parcela de culpa na resposta brasileira à pandemia.

Temos que deixar claro é que a visão da sociedade frente à pandemia, principalmente a visão da sociedade brasileira, foi uma visão individualista. O momento de pandemia é um momento de dor, com os impactos de saúde, com perdas de pessoas, mas também com impactos econômicos severos. Então é necessário que a gente reflita enquanto sociedade e proteja as populações mais vulneráveis dos impactos econômicos que estão associados às medidas mais restritivas de locomoção, que geram desaceleração da economia. E quem sofre nesse momento, geralmente, é quem não tem emprego formal, a população mais pobre. Temos que discutir melhor a pandemia e ter uma resposta unida do ponto de vista do Governo Federal, estados e municípios, isso não aconteceu até o momento no Brasil.

Então, o cenário que a gente encontra hoje tem cada ator com a sua responsabilidade, o Governo Federal, os estados e os municípios, e também a sociedade do ponto de vista de se organizar no sentido de responder a pandemia, ter mais empatia em relação ao isolamento de pessoas doentes, do uso de máscaras, de medidas individuais e também de medidas coletivas relacionadas a proteção social, ou seja, empatia no sentido de ajudar pessoas mais pobres que precisam de suporte social nesse momento tão difícil de pandemia.

Com relação à vacinação, como explicar e convencer a população da importância de se vacinar?

Com a função do Governo Federal de comunicar de forma mais clara, isso não está sendo feito. Inclusive houve comunicações inadequadas, como, por exemplo, de que vacina RNA pode transformar pessoas em jacarés. Sabemos que os estudos sofrem com uma avaliação bastante criteriosa, além dos dados serem publicados, os estudos de fase 3 são revisados pelas agências regulatórias do mundo todo, aqui no Brasil a Anvisa é a agência que representa o governo brasileiro. Quando você tem uma vacina aprovada pela Anvisa demonstra que ela é segura e eficaz e a população pode utilizar sem medo. Então o que eu acho que falta é a comunicação desmistificando muitos dos mitos. O grande problema é quando o próprio governo dissemina fake news como o caso pontual da frase do presidente em relação a quem tomar uma vacina específica de RNA poder se transformar em um jacaré.

Você também está envolvido no projeto do uso da vacina BCG para Covid-19, o Brace Trial Brasil. Pode nos explicar um pouco sobre essa vacina e em que fase está?

O estudo da BCG é um estudo que tem financiamento da Fundação Bill e Melinda Gates, desenvolvido na Austrália, Reino Unido, Espanha, Holanda e Brasil. Aqui no País temos três sítios, Manaus, Campo Grande e Rio de Janeiro, todos da Fiocruz, coordenados por mim e pelos pesquisadores Marcus Lacerda e Margareth Dalcolmo. Temos mais de 2 mil voluntários recrutados em cada um desses sítios. O objetivo inicial era avaliar se a BCG poderia proteger contra as formas graves da Covid-19. Nossa meta era recrutar 10 mil trabalhadores de saúde e conseguimos chegar a uma máxima de 7 mil.

Agora, nesse momento com a vacinação em massa dos trabalhadores com a vacina específica para Covid-19 nós também aproveitamos o estudo para avaliar o impacto da vacinação nesse estudo propriamente. Ou seja, vacinamos com a BCG através do ensaio clínico e agora temos a vacinação em massa dessa população e iremos verificar se a BCG consegue, de alguma forma, gerar uma resposta mais robusta. Isso é, se a BCG seria uma vacina inicial que após uma vacina específica geraria uma resposta mais pronunciada. Também vamos verificar se a associação ou não da BCG, em relação à vacina da Covid-19, gera mais proteção das formas graves da doença.

Também vamos avaliar, além da proteção e resposta imunológica, se tanto a vacina específica da Covid-19 para o grupo controle que não tomou BCG fez uso, como o grupo que tomou BCG e vacina específica para Covid-19 utilizou, se essas combinações protegem para a nova variante P1, que está se tornando predominante no Brasil.

Estamos presenciando novas cepas do coronavírus? Por que isso ocorre?

As novas variantes têm impacto direto na pandemia por terem uma maior transmissibilidade e isso, de alguma forma, impacta na capacidade de estados e municípios de responderem a pandemia, porque se uma variante é mais transmissível, temos mais pessoas adoecendo ao mesmo tempo e mais pessoas que necessitam de internação hospitalar e internação em unidades de terapia intensiva ao mesmo tempo, ou seja, a capacidade que a gente tinha anteriormente para responder à pandemia se torna limitada. Temos a comprovação de que essa nova cepa é 10 vezes mais transmissível, o pesquisador Felipe Naveca, de Manaus, reportou isso. Então, do ponto de vista da transmissão, ela gera mais impacto, mais medidas restritivas são necessárias, mais atenção e adesão às medidas individuais são necessárias.

Outro ponto é a parte imunológica, parece que a nova variante está associada a maior frequência de reinfecções, o que derruba, de alguma maneira, o conceito de imunidade de rebanho, porque no momento que a gente tem uma nova variante, que tem escape do sistema imune em relação a infecção prévia, você nunca vai atingir imunidade de rebanho pois sempre vão surgir novas variantes. Quanto mais circulação do vírus, maior chance de mutação, maior chance de surgir novas variantes, com impactos epidemiológicos importantes, como foi o caso da variante P1 que surgiu em Manaus.

Qual a maior preocupação em relação a isso? Pode impactar nas vacinas já existentes?

Já verificamos que com as vacinas Novavax e Johnson & Johnson houve uma redução de anticorpos neutralizantes, mas sem impacto clínico em relação a efetividade da vacina. Eu estou conduzindo um estudo em Manaus, com o apoio da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas e da Secretária Municipal de Saúde de Manaus, com o apoio da Opas, para verificar se, tanto a vacina da Coronavac, quanto a vacina da AstraZeneca, ainda têm efetividade para a nova variante.

Como Manaus foi a primeira cidade onde houve a circulação da nova variante e o estado do Amazonas é o que mais vacinou, comparativamente com outros estados, lá também vai ser o primeiro local em que vamos entender se as vacinas continuam funcionando para essa nova variante. Pretendemos ter resultados parciais desse estudo até final de março para informar tanto ao estado, como para todo o Brasil e toda a sociedade, principalmente com o intuito de reforçar a importância da vacinação ou de atualizar os componentes da vacina no sentido de fornecer uma mais efetiva para a população, se assim for necessário

Qual a expectativa para os próximos meses, pensando no enfrentamento à pandemia?

A expectativa é que março seja o pior mês da pandemia, com perspectiva ainda crescente do número de casos. Acredito que a gente vai ter um alívio mais para o final do primeiro trimestre. Temos uma proposta de ter mais vacinas, tanto pelo Butantan, quanto pela Fiocruz, até final de março, 30/40 milhões de doses, o que nos permite pelo menos vacinar todos os idosos e talvez pessoas com comorbidades, que exercem uma forte pressão sobre o sistema de saúde. Então a partir do momento que começa essa vacinação mais efetiva dessa população, isso deve ocorrer no mês de abril propriamente dito, vamos ter um impacto em casos de hospitalizações, provavelmente em maio e junho. Isso não impede que o vírus continue circulando e que a gente tenha que anualmente tomar vacina.

Frente à situação que estamos presenciando agora, qual seria o cenário ideal para o combate à pandemia?

Temos que ter medidas restritivas mais severas e algumas cidades deverão sim adotar lockdown, porque temos uma variante mais transmissível, então não vai restar alternativas sem ser medidas mais restritivas, associadas a ampliação da vacinação em toda a população, começando pelos grupos de risco, isso tem que ser feito de uma forma muito rápida. Portugal vivia um momento bastante impactante da pandemia, também seu pior momento, e foi através dessas duas medidas que houve desaceleração na curva de novos casos e uma redução importante das internações.